Conto do Caboclo Mirim


Conta o Caboclo Flecheiro de Aruanda uma fábula interessante sobre 2 caboclos mirins ("caboclinhos"):


Curama e Cuabara eram dois irmãos filhos do Cacique da aldeia e um deles estaria fadado a assumir este papel na tribo. Eles eram como a lua e o sol. Curama era calmo, Cuabara era agitado. Curama era introvertido, Cuabara era extrovertido. Curama era perfeccionista, Cuabara era prático. Curama era o o irmão mais novo e Cuabara o mais velho.


Uma noite, o Cacique anunciou que Curama seria o novo cacique da aldeia. Indignado, Cuabara foi até seu pai pedir explicações:


- Pai, como pode optar por Curama sendo eu o mais velho?!


- Estou pensando em guerrear com a tribo Indaiá, pode ir ao estábulo ver como estão nossos cavalos?


Sem entender nada, Cuabara foi velozmente ao curral e voltou.


- Como estão os cavalos? (Disse o pai)


- Estão bem! Mas não faz sentido algum esta conversa! Se vamos entrar em guerra, não podemos perder tempo! Estou pronto para ser o Cacique! Deixe-me liderar o exercito até o objetivo! (Disse Cuabara)


- Sente-se. (Disse o pai) e logo em seguida mandou chamar Curama.


Curama entra na oca e o pai faz a mesma pergunta:


- Estou pensando em guerrear com a tribo Indaiá, pode ir ao estábulo ver como estão nossos cavalos?


Muitos minutos depois de Cuabara, Curama volta e o pai pergunta:


- Como estão os cavalos?


- Temos hoje 30 cavalhos, mas infelizmente, 5 são idosos e não podemos contar com sua velocidade. 7 são muito jovens e não podemos contar com sua astúcia. Aproveitei e sinalizei o ferreiro para ver o estoque de ferraduras e celas. Temos o suficiente para os 30 cavalos sem hesitar. Da ultima vez que estivemos em negociação na tribo Indaiá observei que eles tem o triplo dos nossos cavalos! Se me permite a observação meu pai, precisaremos de mais cavalos para equilibrar a conta. Por outro lado, eles são grande em número e em velocidade, mas são pouco espertos. Seu ultimo ancião morreu em batalha e a maior população deles são mulheres e crianças. Estou a sua disposição para tentarmos mais uma negociação meu pai, porém, se for inevitável a guerra, pode contar comigo.


O pai agradece e libera Curama. Vira para Cuabara e pergunta:


- O que você me perguntou mesmo meu filho?


Cuabara abaixa a cabeça, agradece ao pai e se retira.


MORAL DA HISTÓRIA


Quem nunca ouviu um filho de santo julgar as ordens e escolhas do seu pai de santo? Assim como neste conto, em um terreiro não é o índio que se avalia pronto, mas sim o cacique daquela aldeia. Cada terreiro tem seu Cacique e , portanto, suas regras de como desenvolver seus membros, como desenvolver a sucessão, como preparar seus integrantes para batalhas, que batalhas entrar, etc.


As vezes temos determinada característica e achamos que somos superiores aos outros. Se introvertido ou extrovertido, ser rápido ou lento, é insuficiente para elegê-lo a um próximo passo se você não sabe os requisitos deste "próximo passo". Não é a idade ou tempo de casa que nos qualifica para uma atuação diferenciada na tribo, tampouco no terreiro.


Quer se desenvolver? Aqui vão algumas dicas que podemos tirar com esta história:

  • Mais importante que o ritmo é a direção.

  • Quanto mais autogerenciar o seu comportamento, menos tempo vai perder com o comportamento do irmão.

  • Se você é índio, respeite as decisões do seu cacique.

  • Não perca tempo se comparando com os outros. Tente refletir porque o outro e não você.

  • Não tenha pressa.

  • Não tenha ego.

  • Não se envaideça.

  • Parentesco não encurta cargo.

  • O que fala sobre a nossa personalidade são nossos atos e não o "que achamos que somos".

  • Cuidado para não achar que está abalando e na verdade suas atitudes estão lhe transformando em uma vergonha. Quem não consegue melhorar enquanto ser humano dificilmente conseguirá melhorar o próximo.

  • Olhemos a nós antes de olhar o outro.

  • Quando quiser o que o outro tem, tente ao menos fazer o que o outro faz, não por inveja ou cobiça, mas por admiração. E quando copiá-lo nas suas atitudes, lembre de dar crédito a isso! Gratidão e humildade são premissas básicas de uma guerreiro do asé!

  • Não queira ser mais do que você é. Todos temos o nosso brilho.

Fonte: www.cantinhodefrancisco.com.br

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