Quando o Atabaque fala a alma escuta e o corpo responde...


Dentro de nossas Giras de Umbanda, muitas coisas nos chamam atenção, o ritual, a caridade, o amor, o clima de luz e paz, os cantos, as Entidades de Luz, enfim, tantas belezas, tantas coisas maravilhosas e divinas, que até parece que estamos viajando para a linda cidade espiritual de Aruanda. Porém, dentre tantas coisas lindas, vamos destacar uma que é algo sem igual, algo que nos encanta, nos faz vibrar, nos domina: O Atabaque, instrumento sagrado de nossa amada religião.


O Atabaque é um instrumento musical Sagrado na Umbanda, utilizado nos trabalhos espirituais para produzir vibrações energéticas, que são direcionadas pelo guia chefe, para determinados trabalhos realizados no terreiro.


Normalmente todos os Terreiros de Umbanda tem a apresentação do Atabaque, que com seu toque, sua cadência, sua força e luz espiritual, auxilia extremamente a concentração, vibração e incorporação dos médiuns, que estão preparados, ou seja, desenvolvidos mediunicamente e espiritualmente para esse trabalho, cedendo sua Coroa, seu corpo, sua voz, para as amadas Entidades de Luz, e assim auxiliar a quem busca um caminho para chegar aos braços do Pai Maior dentro da religião umbandista. Os Atabaques são tambores altos e estreitos, afunilados de um só couro, usados para atrair as diferentes vibrações quando tocados. Os Atabaques são usados para manter o ambiente sob uma vibração homogênea e fazer com que todos os médiuns permaneçam em atenção mediúnica.


Os Atabaques são um dos principais pontos de atração de vibrações de um terreiro. A energia dos Orixás e das Entidades de Luz chamados é captada pelos assentamentos e direcionada para o Zelador onde é concentrada e depois lançada para os Atabaques onde é modulada e distribuída para os médiuns da corrente.


Os Atabaques vieram pelas mãos dos negros africanos, que foram escravizados e trazidos para o Brasil, ele é usado em quase todos rituais afro-brasileiro, porém é bem comum na Umbanda e no Candomblé, mas também poderemos encontrar esse sagrado instrumento em outras nações, influenciado pelas tradições africanas de uso tradicional na musica ritualista religiosa, utilizados para a convocação de Entidades de Luz e Orixás.


Anteriormente ao Atabaque, se deu início um instrumento antigo conhecido como "macumba", utilizado para as percussões musicais, e esse instrumento era formado por uma casca de árvore e duas varetas de bambu, que eram batidos sobre a casca, um tanto parecido com o reco-reco de origem africana.


Após o instrumento "macumba", nasceu o Atabaque pelas mãos dos africanos, e esse é feito em madeira, e os aros de ferro que sustentam o couro, que são esticados de uma forma na qual fique com um som limpo e agradável. O responsável pelos Atabaques é normalmente uma pessoa escolhida no terreiro que conheça os ritmos aplicados para cada linha dentro da Umbanda.


Os Atabaques devem ser tratados com o máximo de respeito e nenhuma pessoa desautorizada deverá tocá-los, o que poderia colocar em risco o equilíbrio da gira e a faixa mediúnica dos médiuns da corrente.


Quando fora de uso, os atabaques, devem ser cobertos com pano próprio, de cor branco, e só podem ser retirados pelos responsáveis de cada instrumento, ou por pessoa autorizada pelo Ogã Mestre, ou pelo Zelador de Santo da casa. É bem importante observar que o toque (volume) dos atabaques nunca deve exceder as vozes da corrente. Quando o atabaque excede a corrente se desorganiza e o médium perde a concentração, atrapalhando assim a desenvoltura na incorporação ou nos trabalhos.


Na Umbanda temos três tipos de Atabaques, que são utilizados para dar a cadência dos toques e assim fazer com que a vibração mediúnica dos filhos da casa se condensem com a vibração das Entidades de luz e dos Orixás, para que a incorporação seja extremamente segura, fazendo assim o trabalho perfeito em prol da caridade.


Esses Atabaques são conhecidos como: Rum, Rumpi e Lê. Rum: Significa grande ou maior. Rumpi: Significa médio ou mediano. Lê: Significa pequeno ou menor. Abaixo falaremos a diferença de cada um deles.


Antes vamos frisar duas formações básicas na colocação dos Atabaques e de seus atabaqueiros, para que possamos entender a colocação desses instrumentos dentro dos Terreiros, ou lugares apropriados para a realizações das Giras, locais como as matas, as cachoeiras, as praias, etc. A primeira formação é conhecida como "Formação Horizontal", e a segunda é conhecida como "Formação Ponta de Flecha ou em "V".


FORMAÇÃO HORIZONTAL: Essa é a formação mais utilizada, talvez por ocupar menos espaço dentro dos Terreiros. Ela se compõe de normalmente três Atabaques, distribuídos dentro do modo e regras do Terreiro. Podemos também ver em algumas casas de Umbanda três ou mais linhas horizontais de Atabaques e atabaqueiros, ou seja, uma linha de Atabaque Rum, com três instrumentos, uma de Atabaque Rumpi, com três instrumentos da mesma forma, e uma de Atabaque Lê, também com três instrumentos, sendo enfileirados, conforme o espaço do Terreiro e a determinação do Ogã Mestre ou do Zelador da casa.


FORMAÇÃO PONTA DE FLECHA OU EM "V": Essa formação é mais utilizada em Terreiros mais espaçosos ou em Giras fora do Terreiro, como nas praias ou cachoeiras por exemplo. Essa formação é feita por uma colocação de um Atabaque Mestre no inicio da ponta, e vem se abrindo em "V" com abertura em diagonal externa, sendo os Atabaques colocados em uma distância compatível com o tamanho do local destinado aos instrumentos. Ela tem por obrigatoriedade se iniciar com um Atabaque Rum na ponta, podendo a partir do segundo grupo seguir dois desses Atabaques, ou dois Atabaques Rumpi, seguindo a abertura da formação conforme a quantidade de instrumentos que tenha na casa, e se fechando com dois Atabaques Lê. Toda a formação deverá ser determinada pelo Ogã Mestre ou pelo Zelador de Santo.


Agora falaremos sobre os Atabaques. RUM: Esse Atabaque é o maior de todos, normalmente tem 1,20 M (um metro e vinte centímetros) de altura, fora a base. Ele que registra o som mais grave. É através dele que as energias chegam no Terreiro, é dele que vem a cadência mestra, ou seja, é dele que deve vir o maior patamar de vibrações espirituais para os trabalhos mediúnicos, chamado também de "Puxador". Normalmente esse Atabaque fica do lado direito, de quem esteja olhando de frente para os atabaqueiros, isso em uma colocação horizontal, porém em uma formação Ponta de Flecha, o Atabaque Rum fica no inicio da formação (apenas um, sem pares), podendo estar também a partir daí de dois em dois, dependendo da quantidade de Atabaques Rum, existentes no Terreiro, sempre verificando a distância compatível com o tamanho do local destinado aos instrumentos.


O Atabaque Rum sempre deverá ser tocado pelo Ogã chefe, ou Ogã Mestre, e só poderá ser tocado por outro atabaqueiro caso tenha permissão do Ogã chefe, fora isso, caso tenha uma Gira na qual o Ogã chefe ou mestre não possa estar presente, esse Atabaque deverá ficar em silêncio, coberto com seu pano branco.


A função desse Atabaque é dar os primeiros toques nos pontos, repicar e conduzir os trabalhos impulsionando energias, isso justifica tamanha importância e respeito por se tratar do Atabaque do Ogã Mestre. RUMPI: Esse Atabaque é de tamanho médio, varia entre 80 CM à 1 M (oitenta centímetros à um metro) de altura, fora a base. Tem o som entre o grave e o agudo. É o Atabaque que faz a proteção, e é ele que tem a responsabilidade de fazer a maioria de dobras, ou seja, repiques diferenciados, com uma entonação bem forte.


Esse Atabaque é o que fica no meio, caso a formação for em horizontal no local onde está reservado para os médiuns atabaqueiros e curimbeiros. Já em uma formação em ponta de flecha, ele pode ficar após a colocação do puxador, ou seja, do Atabaque RUM, que vai depender de cada casa, podendo o Atabaque Rumpi estar na segunda ou terceira fila em linha diagonal aberta, frisando que deve estar sempre em pares para essa formação.


O Rumpi poderá ser tocado por qualquer outro filho considerado um atabaqueiro, e autorizado pelo o Ogã chefe. A função do Rumpi é dar somente o ritmo do toque e manter a harmonia, tendo sua importância particular, pois ele é responsável por sustentar a energia básica trabalhada pelo toque. LÊ: Esse é o caçula dos Atabaques, de tamanho menor, ele pode medir entre 45 à 60 CM (quarenta e cinco à sessenta centímetros) de altura, fora a base. Seu som registra o tom agudo, e ele que faz a ligação entre o som dos Atabaques e o som do canto.


Esse instrumento é utilizado pelos aprendizes atabaqueiros e curimbeiros, e devemos respeitá-lo da mesma forma do que os outros Atabaques. Normalmente ele fica do lado esquerdo de quem olha de frente a colocação dos Atabaques, isso em uma formação horizontal, e em uma formação Ponta de Flecha ele ficará logo após a colocação dos Atabaques Rumpi, e tem a finalidade de fechar a formação, sempre claro vindo em pares, assim como toda a formação, com exceção do Atabaque Mestre, que se inicia apenas um, na formação Ponta de Flecha.


O Atabaque Lê, deve seguir sempre os toques do Rumpi. Pode ocorrer de que o guia chefe indique futuros Ogãs e atabaqueiros, e o Ogã chefe tem o direito de compartilhar ou não desta indicação. Caso seja compartilhada, cabe a ele designar o Atabaque que será tocado pelo iniciante.


O trio de atabaques (no caso da formação horizontal), ou conjunto de Atabaques (no caso da formação Ponta de Flecha) executa, ao longo da gira, uma série de toques que devem estar de acordo com os Orixás ou Linhas chamadas que vão sendo evocados em cada momento do trabalho, para que assim desde a abertura até o fechamento de uma Gira, toda a irradiação seja harmônica entre as vibrações mediúnicas e os toques vibratórios. Como percebemos os Atabaques e a Curimba são de suma importância para o bom andamento de uma Gira.


A Curimba é o nome que damos para o grupo responsável pelos toques e cantos sagrados dentro de um terreiro de Umbanda. São eles que percutem os atabaques (instrumentos sagrados de percussão), assim como conhecem cantos para as muitas "partes" de todo o ritual umbandista. Esses pontos cantados, junto dos toques de atabaque, são de suma importância no decorrer da gira e por isso devem ser bem fundamentados, esclarecidos e entendidos por todos nós.


A Curimba também é de suma importância para a manutenção da ordem nos trabalhos espirituais, com os seus pontos de "chamada" das linhas, subida, firmeza, saudação, enfim, para todo andamento da Gira.


Só para esclarecimento, muitas pessoas dizem que são os Atabaques juntamente com seus atabaqueiros, que chamam as Entidades de Luz, isso claro é uma inverdade, pois todas as Entidades já se encontram no espaço físico e espiritual de um Terreiro, bem antes mesmo do começo dos trabalhos. Os Atabaques são responsáveis pela concentração dos médiuns, e também como uma sustentadora da manifestação dos Guias.


O que realmente invoca os guias e os Orixás são os nossos pensamentos e sentimentos positivos vibrados em vossas direções. Muitas vezes ao cantar expressamos esse sentimentos, mas é o amor aos Orixás a verdadeira invocação de Umbanda.


Portanto não é verídico a pregação de alguns supostos Ogãs, que dizem que são eles que trazem e levam determinada Entidade de Luz, a seu bel prazer. Porém essa prepotência não pode ser aceita em nenhum Terreiro. O Ogã pode sim auxiliar extremamente com seu toque no Atabaque, mas dentro da determinação dos Zeladores e das Entidades.


O Atabaque antigamente era visto como um instrumento de feiticeiros, pelo fato de que foram os negros escravizados que os trouxeram para nosso país. Primeiramente os Atabaques surgiram na região Nordeste, provavelmente na Bahia, e nessa região os Atabaques sempre foram alvo da polícia baiana, pois estava terminantemente proibido de serem tocados durante o Estado Novo. E assim para serem tocados somente seria feito na clandestinidade. Esse fato foi terminado apenas quando em certa ocasião, em uma viagem ao Rio de Janeiro, Mãe Aninha, fundadora do Ilê Axé do Opô Afonjá , em São Gonçalo do Retiro, usou de sua influência e conseguiu uma audiência com o presidente Getúlio Vargas . Ela só queria cultuar a religião dos seus antepassados e Getúlio não teria como resistir ao pedido legítimo de uma criatura tão doce. O encontro de Aninha com o presidente do Brasil resultaria no Decreto 1.202, que permitiu o uso dos atabaques nos terreiros. O acontecimento é considerado um passo importante para a liberação definitiva do controle policial sobre os candomblés, o que só ocorreu em 1976, no governo de Roberto Santos. Na ocasião, a notícia foi recebida com entusiasmo pelo povo de santo da Bahia, em plena festa da "Lavagem do Bonfim ."


E assim temos até hoje essa maravilhosa vibração provinda da energia dos amados Ogãs, da força mediúnica dos médiuns e do Sagrado som do toque dos Atabaques, sendo eles para Umbanda, Candomblé, ou qualquer outra religião afro-brasileira existente.


Para entendimento e esclarecimento, vamos descrever o porque o Atabaque tem toda essa ligação espiritual e divina com as religiões afro-brasileiras, frisando que isso tem muito a ver com a sua confecção, e claro com o material empregado nessa confecção, conforme descrevemos abaixo.


O Atabaque é composto por 3 elementos naturais, que são: A madeira, o ferro e o couro.


A madeira, que é regida por Xangô, tem a função de equilibrar a vibração do som e sustentar o cumprimento da justiça divina durante os trabalhos.


O ferro, que é regido por Ogum, tem a função de fortalecer o trabalho realizado no Atabaque, dando garra e força ao Ogã e demais atabaqueiros, para enfrentar as dificuldades que ocorrerem durante os trabalhos, e energeticamente garantir a ordem.


O couro, que é regido por Exú, tem a função de atrair parte das energias condensadas trabalhadas dentro do Gongá, auxiliando na limpeza das mesmas, e quando o Ogã toca o couro do Atabaque, a vibração produzida pelo toque, quebra a contra parte etérea destas energias, dissolvendo-as no astral.


Sendo assim, o Atabaque é responsável, juntamente com as Entidades, pela manipulação de três energias básicas, que são: sustentação, ordem e movimento.


Vamos agora resumidamente demonstrar as ações do som do Atabaque dentro de uma Gira de Umbanda, ou seja, como acontece toda essa vibração, e claro mostrar a importância do sagrado instrumento.


Para que seja produzida a energia necessária dentro de uma Gira, é provocado, pelos atabaqueiros, um atrito no couro do Atabaque, e com isso atingimos níveis de calor e vibrações sonoras que vão diretas para os campos celulares dos médiuns. Os médiuns se eletrizam ao som dos atabaques. Portanto sem os Atabaques essa eletrização é muito menor. E pelo campo magnético do atabaqueiro que absorveu as energias que vieram do Zelador, são projetadas as vibrações dos nossos assentamentos para os demais médiuns. Assim a corrente magnética se espalha pelo recinto de trabalho.


O atabaqueiro, ao tocar, aguça sua captação de energias, recebe de um Guia uma certa carga de vibrações que se infiltra nos seus planos material e espiritual iniciando, depois, um ciclo que terá término em suas mãos. Com a produção de energia calorífica, através do toque no couro, o atabaqueiro fará a mistura com as vibrações das entidades e as vibrações naturais dos médiuns, a sua energia e a do Guia irão circular na corrente mediúnica começando dos médiuns mais preparados e passando para os iniciantes. Essa energia, quando enfraquecida, volta para as mãos do atabaqueiro, onde será fortificada e voltará a fazer o ciclo na corrente.


Percebe-se que tanto a presença física dos atabaques quanto a dos atabaqueiros é de suma importância para a atração e distribuição das energias dentro da gira.


Quando não temos a possibilidade de termos em uma Gira o Atabaque, ou o atabaqueiro, algumas pessoas pregam que poderia ser utilizados aparelhos eletrônicos para que assim se tenha o som e os toques do Atabaque, porém isso é uma inverdade, pois não teria essa corrente de energização contida e necessária aos trabalhos.


Nesse caso a melhor coisa a se fazer é apenas trabalhar com preces e a concentração extrema para obter maior eficiência em todo andamento da Gira.


É importante ressaltar que o Atabaque é um instrumento sagrado, e como tal temos que ter todo o respeito ao manuseá-lo.


Antes de usar o atabaque deve-se pedir permissão, tocando o couro e dizendo a seguinte prece: "Dai-me licença Pai Oxalá. Dai-me licença ...(Entidade dona do Atabaque). Dai-me força e dignidade para esse instrumento eu tocar."


Quando o atabaque for guardado, deve-se agradecer da seguinte forma: "Obrigado meu Pai Oxalá. Obrigado .....(Entidade dona do Atabaque). Obrigado por ter-me permitido cumprir a minha missão."


E assim são os preceitos do Atabaque, que falamos resumidamente nesse texto.


Saravá os Atabaques e seus atabaqueiros!


Que a força, a justiça e a proteção de Xangô, Ogum e Exú estejam com todos os filhos de Umbanda e principalmente com os Atabaqueiros, os Curimbeiros e os Ogãs mestres.


Caô Cabecile Xangô!


Patacori Ogum!


Laroiê Exú!


Carlos de Ogum

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