NOITE ESTRELADA



Contemplei ao longe um grande ideal - e lá se foi o sossego de minha alma.

Nunca mais estarei quite comigo mesmo...

Sempre atuará a gravitação do espírito...

Entrou-me no sangue da alma uma angústia cruel...

Sempre oscilará, irrequieta, a agulha magnética...

Sempre clamará o heliotropismo do meu ser...

Lavra-me no íntimo um incêndio voraz...

Feliz do homem profano - satisfeito consigo e com todo o mundo - esse infeliz!

Infeliz do iniciado - insatisfeito consigo mesmo - esse feliz!...

Aquele não conhece esfinges em pleno deserto - não conhece problemas...

Sorri-lhe o dia perene do seu plácido viver...

Mas o homem que pensa e ama - vive num ambiente de estranha agitação...

A sua noite é noite estrelada, sim - mas a treva é profunda e as estrelas altíssimas...

Todo pensar nos faz inquietos - todo querer nos abre Saaras imensos.

Todo viver oscila entre o Getsêmani e o Gólgota...

Todo amor agoniza entre os braços da cruz...

Entretanto, melhor é o inteligente sofrer - que o estúpido gozar...

Prefiro gemer numa noite estrelada - a sorrir num dia sem mistérios.

Prefiro sentir o que adivinho - a dizer o que ignoro...

Prefiro escutar a filosofia do silêncio fecundo - a ouvir a sociologia do ruído estéril...

Mais belos são os mundos que, incertos, entrevejo - que a Terra que meridianamente enxergo...

Creio mais no muito que ignoro - do que no pouco que sei...

Mais firme é a minha fé num universo ideal - do que nesse cosmos real...

Mais me aliciam ignotos horizontes - do que realidades palpáveis...

Bandeirante do além - não repousa meu espírito na querência do aquém...

Não me interessa o que sei - seduz-me o que ignoro...

Mesquinho é o passado, trivial o presente – como me encanta o futuro!

Contemplei ao longe um grande ideal - e lá se foi o sossego de minha alma!

Nunca mais terei sossego de mim mesmo...

Nunca mais estarei quite comigo...

Devedor insolvente - enquanto viver...

Empolgou-me a noite estrelada do Infinito...

Rebelaram-se as potências dormentes...

Impossível um tratado de paz...

Adoro, ó noite estrelada, seus astros longínquos!

Por eles vivo... luto... sofro... feliz.


(Texto extraído do livro "De Alma Para Alma" - do genial filósofo brasileiro Huberto Rohden – Editora Martin Claret.)


Fonte: http://www.ippb.org.br

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