O QUE ERA PRECISO PARA ACUSAR ALGUÉM DE BRUXARIA?


A Santa Inquisição, promovida pela igreja católica nos séculos passados, foi sem dúvida um dos episódios mais marcantes da história. Sua crueldade atribuiu notoriedade ao episódio e o fez o santo tribunal se tornar um dos fatos mais memorados e relembrados da história universal. E como não poderia ser diferente, junto com a grande fama, surgem uma aura de mitos, muitos exageros e alguns fatos realmente chocantes. Para separar melhor as coisas então, que tal lermos um pouco do que os documentos históricos podem nos dizer?

A santa inquisição foi criada pela igreja católica apostólica romana no século XIII, por Bula Papal assinada pelo papa Gregório IX e inicialmente destinava-se a punir os hereges e convertê-los à fé cristã. Não demorou muito para que a tortura fosse autorizada pela primeira vez por Inocêncio IV na bula Ad Extirpanda de 15 de Maio de 1252.

A partir daí é difícil dizer o que aconteceu de fato. Fontes de pesquisa ligadas à igreja católica afirmam que a tortura e condenações à morte eram raras e pouco frequentes ao contrário do que mostra a literatura, no entanto essas fontes, uma vez ligadas à igreja, têm sua confiabilidade limitada. Fontes independentes apontam que o número de condenações e uso de tortura não era tão pequeno quanto as pesquisas ligadas ao Vaticano indicam, embora os estudiosos reconheçam algum exagero na literatura.

A caça às bruxas, por sua vez, trata de um momento específico da santa inquisição iniciado no século XV e iniciado a partir da obra escrita pelos dominicanos Heinrich Kraemer (também conhecido por Heinrich Institoris) e James Sprenger, em cumprimento à bula papal de Inocêncio VIII, que os autorizava criar um manual de combate aos praticantes de heresias. A obra chamada Malleus-Malleficarum, ou o Martelo das Feiticeiras, em Português, estava por trás de toda condenação ou qualquer outra sentença executada de bruxaria, um verdadeiro manual de instruções sobre como identificar, julgar e punir uma bruxa ou um bruxo.

O livro foi o mais cruel e perverso manual já escrito e sugeria práticas particularmente bárbaras. Dava especial atenção também às mulheres, considerando-as instrumentos do demônio para a bruxaria contra o Santo Ofício e a igreja católica. Contra bruxaria, quaisquer acusações poderiam ser aceitas, como podemos ver no trecho a seguir, retirado do livro:

“É ilegal que qualquer homem pratique a adivinhação; se assim fizer, sua recompensa, será a morte pela espada do verdugo. Também existem aqueles que, com encantamentos mágicos, tentam tirar a vida de pessoas inocentes, convertem as paixões das mulheres em toda classe de luxúrias; estes criminosos devem ser jogados aos animais selvagens.”

E a lei permite que qualquer testemunha seja admitida como prova contra eles. Isto especifica com clareza a parte do Cânon que trata sobre a defesa da Fé. E permite o mesmo procedimento numa acusação de heresia. Quando se apresenta tal acusação, qualquer testemunha pode prestar depoimento, como se tratasse de um caso de lesa majestade. Porque a bruxaria é uma grande traição contra a Majestade de Deus.

Nele torna-se claro que não era necessário muito para acusar alguém formalmente de bruxaria. Bastava que uma mulher fosse ruiva, possuísse sardas, pintas pelo corpo ou mesmo que os vizinhos ficassem gravemente doentes ou ainda que a colheita não fosse muito boa para que uma mulher fosse acusada de bruxaria. Não é por acaso que, em épocas de seca e de epidemias, o número de condenações por bruxaria aumentassem drasticamente.

Mesmo que não houvesse nenhuma acusação real, uma simples intriga podia levar homens e mulheres a enfrentar os tribunais da inquisição e do santo ofício da igreja católica por falsas denúncias de seus inimigos. Mas no final das contas, o medo das bruxas fez com que as coisas fugissem do controle e que tribunais regionais começassem eles próprios a passar por cima do santo ofício e julgar seus casos de bruxaria por conta própria, em um dos maiores episódios de histeria coletiva da história mundial, apoiado pela onda de medo iniciada com o Malleus. É possivelmente daí que surgem então relatos tão divergentes quanto ao número de vítimas da caça às bruxas.

Fonte: http://vamosfalarde.com.br

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