Jovens e Heróis


Não raro eu escuto ser dito que “a culpa da juventude estar assim são esses jogos que eles jogam e esses programas da televisão que assistem”. Eu discordo desta colocação, e não por ocupar uma posição de alguém que detém um conhecimento psicológico, mas de alguém que cresceu jogando videogame e assistindo desenhos animados que por vezes envolviam lutas e combates. Alguém que cresceu saudável e que teve sua formação moral diretamente influenciada por eles. Hoje eu me arrisco a dizer que provavelmente aprendi mais condutas éticas nos meus desenhos favoritos do que em alguma codificação moral específica. Em primeiro lugar, há alguma possibilidade desta violência glamourizada estar causando algum malefício às crianças? Possibilidades há, mas são casos específicos que não podem ser generalizados indiscriminadamente. Videogames violentos, por exemplo, podem estimular a agressividade de alguns jogadores (e não apenas crianças se incluem neste grupo), mas também podem estimular capacidades visuais, espaciais e servirem como sublimação para impulsos violentos. As pessoas que são negativamente afetadas são aquelas com disposição pré-existente. Para a maioria das crianças, no entanto, estes não apresentam malefício, mas benefícios. A figura dos heróis é importante para a identificação no processo de construção de identidades nos jovens e, consequentemente, no desenvolvimento de condutas éticas na personalidade de crianças.


Meu herói favorito desde criança foi o Homem-Aranha, provavelmente por identificação pessoal mesmo. Peter-Parker não é o modelo perfeito de herói, pois pelo contrário, está muito mais perto do humano e do falível que do mítico e perfeito. Eventualmente comete erros, se arrepende de seus atos e sofre bastante com suas escolhas. Por fim, suas aventuras sempre terminam com um aprendizado sobre si mesmo e os outros, o que faz com que o próprio herói se desenvolva como pessoa ao longo de sua saga.


A tragédia e o sofrimento são constantes na vida de Peter Parker. Órfão, vai viver com seus tios, pessoas simples e bondosas que, apesar de pouca condição financeira, lhe dão um profundo ensinamento ético, algo que ele vai carregar consigo para o resto de sua vida. Jovem, tímido e desajeitado com as garotas, não era bonito nem forte, mas era extremamente inteligente, representando o tipo nerd antes mesmo deste se tornar “popular” como aparenta ser hoje. Assim que ganha seus poderes, Parker percebe que os poderia utilizar para proveito próprio. Levado por pensamentos individualistas deixa que um ladrão fuja e pouco tempo depois o mesmo viria a se tornar o assassino de seu tio. Assim ele aprende a grande lição que irá ecoar ao longo de toda sua história: “grandes poderes vêm com grandes responsabilidades”. E isso é o que o Homem-Aranha nos insiste em dizer: se você pode ajudar alguém, você tem o dever de fazer isso. Se você sabe algo, você deve compartilhar seu saber. Se algo material ou moral lhe sobra enquanto a outros lhes faltam, você deve contribuir com o que você pode. Nossas ações influenciam diretamente o meio que nos circunda, e o meio que nos circunda influencia a nós mesmos. Dessa forma, todas as nossas escolhas possuem uma consequência para nós mesmos. Não penso em exemplo melhor do que uma própria teia: qualquer movimento em uma de suas ramificações reverbera em toda a sua estrutura. Entretanto, o próprio Homem-Aranha é exemplo de que é impossível solucionar todos os problemas do mundo, pois o mesmo em diversas ocasiões acaba falhando. Mas ainda assim ele insiste, pois cada um deve fazer a sua parte, na medida em que pode.


O trauma é algo que, assim como em nossas vidas, também está presente na vida do amigão da vizinhança. Seu primeiro grande amor morre nas mãos de um de seus maiores inimigos (isso após ele ter prometido no momento da morte do pai dela, um grande amigo seu, que a manteria segura). A dificuldade financeira também está sempre atormentando o pobre Parker. Ainda durante os estudos ele vai trabalhar como fotógrafo para poder sustentar a si mesmo e ajudar a sua tia. Peter Parker não é milionário como Tony Stark ou Bruce Wayne, não tem a vida fácil que a maioria dos outros heróis possuem. A vida dele é dura, difícil, e ele deve lutar para conquistá-la a cada dia. O trauma apesar de fazer parte de sua vida, não o imobiliza. Dele ele tira mais força para continuar lutando e escrever a sua própria história.


Emocionalmente, Peter Parker é tão humano como qualquer um de nós. Eventualmente comete erros e se arrepende, devendo assim tentar consertar as coisas. O drama na história do Homem-Aranha é mais do que vilões com planos macabros, é na verdade um drama intimista e que remete constantemente a episódios de nossas próprias vidas. Sem falar nos vários amores de Peter Parker, embora as duas principais que ficaram marcadas na memória dos fãs foram a loira Gwen Stacy e a ruiva Mary Jane (mas não nos esqueçamos da milionária Felicia Hardy).


As identidades no universo do Aranha são sempre cambiantes. Harry Osbourne, que é inicialmente seu amigo, vai fazer de tudo para matá-lo quando descobre que o herói estava envolvido no episódio da morte de seu pai, até que por fim acaba salvando a vida do Aracnídeo antes de morrer, redimindo-se. Herói e vilão na série são simples questões de escolhas pessoais. A maioria de seus inimigos, na verdade, tem uma origem parecida com a dele: ganham poderes em experimentos científicos que não deram certo.


Depois de viver muitas aventuras, enfrentar diversos inimigos e ver seu mundo mudar totalmente ao longo dos anos, por fim, Peter Parker consegue seu final feliz. Casa-se com a linda Mary Jane e tem uma filha. Mas como nada é fácil na vida do Aranha, houve uma memorável confusão: Peter Parker antes deve enfrentar seu clone. Entretanto, ao fim da batalha, ainda ficamos com uma dúvida: se temos dois “Peters” idênticos, com personalidade e caráter semelhante, e com as mesmas memórias, quem é o verdadeiro Peter Parker? E assim por algum tempo, durante a Saga dos Clones, ficamos sem saber se Ben Reilly era o verdadeiro Aranha e se o vencedor do combate tinha sido na verdade o clone. Por fim, Ben Reilly prova ser um verdadeiro herói, e o Peter Parker que fora vencedor do primeiro duelo entre os dois e que havia se casado com Mary Jane era realmente o Homem-Aranha original. Uma pena Ben Reilly morrer nas mãos do Duende Verde Norman Osbourne (que volta praticamente “ressuscitado”), pois fora um ótimo Homem-Aranha enquanto o original estava vivendo sua “aposentadoria”.


Nos quadrinhos a história nunca recebeu um final definitivo. É da natureza do mito, não apenas dos antigos mas também dos modernos, serem constantemente recontados, e a cada vez que ele ressurge, ele se adapta ao novo contexto social em que agora está imerso. Houveram dessa forma alguns reboots, e a história teve variadas versões na mão de diferentes autores. Algumas muito boas, outras que é melhor nem lembrarmos. De qualquer forma, a série rendeu uma boa primeira trilogia ao cinema (a segunda não me mostrou grande coisa) e uma adaptação excelente à televisão nos anos 90 conhecida como “Spider Man: The Animated Series” (que só por ter sido produzida pelo Stan Lee já garante sua qualidade).


O exemplo oferecido pelos heróis infantis muito diferem das lições que alguns moralistas outorgam às crianças. No primeiro caso, a criança assiste a algo porque gosta e fará uma escolha intencional no processo de identificação. Já no segundo, algo é dito ser o certo porque alguém simplesmente diz que é, enquanto que nos casos dos heróis a própria intenção da criança em espelhar-se em figuras simbólicas está na motivação das escolhas. Claro que a participação dos pais neste processo é fundamental, devendo os mesmos procurar saber o que o seus filhos estão assistindo ou jogando para entender se aquilo realmente é interessante para uma criança, pois nem tudo que é oferecido pelo mercado vale a pena. Pais com bom senso são um diferencial nesse momento para entender que não são “apenas histórias infantis”, mas são mitos modernos a espera de um espectador para vivenciá-los e crescer como pessoa junto a eles.


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Igor Teo sempre quis ser o homem-aranha. Como não deu, resolveu fazer faculdade de psicologia mesmo.

Fonte: https://www.deldebbio.com.br/jovens-e-herois/#more-11197

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